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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Registados nove casos de mutilação genital feminina em Portugal desde Março


Mural dedicado às vítimas de MGF, pintado por Tamara Alves e Fidel Évora.

A Plataforma de Dados da Saúde registou nove casos de mutilação genital feminina (MGF) em Portugal desde Março, adiantou nesta sexta-feira a secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade.

Em declarações à Lusa, Teresa Morais considerou de “uma importância muito grande” o registo de “casos concretos” na plataforma, que, depois de ter experimentado alguns problemas técnicos, está em funcionamento desde Março.

Estima-se que 140 milhões de mulheres tenham sido submetidas à MGF em todo o mundo e que três milhões de meninas estejam em risco anualmente. A prática, que causa lesões físicas e psíquicas graves e permanentes, é mantida em cerca de 30 países africanos, entre os quais a lusófona Guiné-Bissau.

A MGF migrou para a Europa, onde se estima que vivam 500 mil mulheres afectadas por uma mutilação genital e 180 mil meninas estejam em risco, anualmente.

A referenciação dos casos representa “um passo decisivo em matéria de conhecimento sobre a realidade da mutilação genital feminina em Portugal, de que, durante muitos anos, se falou apenas em termos teóricos, (…) de sensibilização, sem que o país soubesse, verdadeiramente alguma coisa de concreto sobre o que se passava”, afirmou Teresa Morais.

“É o início de uma nova fase na abordagem da mutilação genital feminina em Portugal”, frisou, sublinhando que permite “passar das meras suspeitas” a “casos concretos”.

Juntando o registo ao estudo de prevalência em curso, Portugal poderá passar de “estimativas feitas em cima do joelho para um conhecimento mais detalhado”, que permita “intervir junto das comunidades de risco”, destacou.

Realçando que apenas foi informada do número de casos e da tipologia da mutilação genital em causa, Teresa Morais reconheceu que será relevante conhecer outros detalhes, como a idade das vítimas e o local e a data da prática da MGF. Essa informação, disse, deverá constar do relatório que a Direcção-Geral da Saúde divulgará no final do ano.

Teresa Morais adiantou ainda que foi aprovada pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco “uma circular, sob a forma de manual de procedimentos, com orientações técnicas sobre como os técnicos e as técnicas das CCPJ devem actuar para prevenir e sinalizar os casos de MGF”.

A secretária de Estado informou também que a pós-graduação sobre MGF na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa “vai ser repetida em Outubro”. Com propina gratuita, a primeira edição foi frequentada por mais de 30 profissionais de saúde, que depois deram formação aos colegas.

Entretanto, acrescentou a governante, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) está a trabalhar num protocolo com Instituto Politécnico de Setúbal, para realizar uma pós-graduação em moldes similares no Barreiro, no último trimestre de 2014.

Ainda sobre a MGF, estão abertas até 4 de Agosto as candidaturas ao prémio “Mudar agora o futuro”, podendo concorrer a financiamento as “organizações sem fins lucrativos que tenham projectos de intervenção na comunidade que possam contribuir para prevenir e erradicar esta prática”, recordou a secretária de Estado.

FONTE: Público.
Mais sobre a imagem/mural: Rede Angola.
Link da Plataforma de Dados da Saúde: PDS.



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Mutilação genital passará a ser investigada sem queixa

"A Procuradoria-Geral da República (PGR) deu parecer positivo a três projectos de lei (do PSD, do CDS-PP e do Bloco de Esquerda) para tornar a mutilação genital feminina um crime autónomo e de natureza pública.

Fonte da imagem: focandoanoticia.
Os projectos já estão em fase de discussão na especialidade. Quando a lei for publicada, o Ministério Público passará a poder abrir inquéritos sempre que tiver conhecimento de que uma menor foi mutilada na zona genital, sem precisar de queixa-crime da lesada. Exactamente como aconteceu com a violência doméstica quando passou a crime público.

"Até ao momento são conhecidos quatro inquéritos por factos que integram o conceito de mutilação genital feminina. Um desses inquéritos teve início no corrente ano", respondeu por escrito ao DN a procuradora Helena Gonçalves, assessora do gabinete da procuradora-geral da República (PGR). "A inexistência de um tipo de crime de "Mutilação Genital Feminina" (MGF) dificulta a obtenção de dados estatísticos objectivos, uma vez que o registo do inquérito se fará, à partida, por crime de ofensa à integridade física", referiu."


sábado, 31 de dezembro de 2011

No Vale da Amoreira a excisão é uma prática real com resposta difícil, diz associação de imigrantes

« O tema é tabu. As histórias contam-se sem dizer nomes mas têm data recente: a Associação de Imigrantes Guineenses e Amigos do Sul do Tejo diz que no Vale da Amoreira, na Moita, há meninas a sofrer mutilação genital.

A associação (AIGAST) trabalha há dez anos para responder às necessidades da população do Vale da Amoreira, onde vivem mais de 12 mil pessoas - 30 por cento, estima-se, originárias da Guiné. O bairro é cinzento, pobre e tem um número elevado de desempregados. Em declarações à agência Lusa, Susana Piegas, da AIGAST, afirma que a mutilação genital feminina (MGF) "é uma questão muito presente" nos dias do bairro e assegura que "os números reais da prática da excisão de meninas - que ninguém consegue contabilizar - são avassaladores". "Identificamos na nossa comunidade pessoas que levaram a cabo a prática e outras que pretendem fazê-lo. Aqui há famílias em que todas as mulheres foram excisadas. Tivemos, por exemplo, há uns meses, conhecimento de que três meninas da mesma família foram mutiladas aqui no bairro e sabemos de outras que vão à Guiné para cumprir esse ritual", acrescenta.

Rosa Tavares, guineense, é também membro da AIGAST e coordena o departamento de saúde da associação. " Lusa conta que é casada com um muçulmano e que impediu que a sua filha fosse mutilada. Sobre a situação que se vive no bairro, acrescenta "o problema" de "haver muitas pessoas a ganhar dinheiro com a prática da MGF". Não diz quanto pode custar fazê-lo no Vale da Amoreira, mas afirma que a prática "gera muito dinheiro". Susana Piegas explica que a AIGAST quer "ajudar a combater este flagelo", mas considera que "isso só pode ser feito informando, sensibilizando, trabalhando na prevenção". "Queremos trabalhar junto da comunidade para desmistificar estas tradições intergeracionais. Temos dado alguns passos nesse sentido mas precisamos de mais recursos. O trabalho exige investimento e demora tempo a dar frutos, mas tem que ser feito. É preciso inverter esta situação", argumenta.

A mutilação genital feminina é reconhecida internacionalmente como uma grave violação dos direitos humanos. A Organização Mundial de Saúde estima que mais de 140 milhões de mulheres, raparigas e meninas tenham sido já submetidas a esta prática e que cerca de três milhões se encontrem todos os anos em risco. Embora a prática ocorra sobretudo em países africanos, tem sido importada por comunidades imigrantes para a Europa, onde o Parlamento Europeu estima que vivam cerca de 500 mil mulheres e jovens mutiladas e 180 mil em risco anualmente.

No início deste ano, a propósito do Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, que se assinala a 06 de Fevereiro, o Governo apresentou o II Programa de Acção para a Eliminação da Mutilação Genital Feminina (2011-2013) para "promover uma mudança de valores culturais" e "reforçar as medidas de prevenção". »


Fonte: Diário de Notícias On-Line
Sugestão de: Andreia Gonçalves

sábado, 5 de novembro de 2011